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Belo Horizonte - 08 de março de 2011
Terça-feira - 00h01min


Caio Júlio César, os piratas e a cruz.

Eu sou daqueles que guarda certo receio dos mares. Não sei se gostaria de morar em uma praia. Tenho um medo adormecido de tsunamis, maremotos, godzillas, e, ultimamente, do degelo da calota polar.

Minha praia é a terra firme, se possível a rocha dura. Mas há aqueles que, por necessidade ou opção, trabalham ou viajam por mar, e a preocupação desse pessoal tem sido outra. Godzilla, aliás, é o de menos para eles. O flagelo que os assola é bem outro, e é tão antigo quanto a presença do homem nos mares: a Pirataria.

Ultimamente temos ouvido falar mais e mais desse problema, na medida em que os piratas da Somália vão arrepiando o oceano índico. Nós é que não passamos muito por ali, mas "quem faz aquele caminho" está de cabelo em pé. A coisa está feia.

Desde 2005 diversas organizações internacionais têm demonstrado preocupação com o crescimento dos atos de pirataria na região da Somália. As explicações para o atual estado de coisa remetem à pesca ilegal internacional e ao despejo de dejetos tóxicos na área, que teriam resultado em dificuldades para a pesca e impulsionado a participação dos pescadores nativos em atos de pirataria. Além disso há a guerra civil, a fome, etc.

Hoje em dia, contudo, por mais que a situação tenha origens em problemas sociais, além de políticas públicas internacionais, é necessária uma ação firme das forças náuticas envolvidas. A pirataria naquela região reclama medidas urgentes da comunidade internacional.

Não é o Brasil que vai dar solução ao caso, até porque nós não passamos muito por ali. E eu, como leigo, não tenho a pretensão de apontar nenhuma solução para o problema. Mas como alguém que gosta de romanismos, “romanidades”, e “romanescências” em geral, me lembro do modo como a história relata o tratamento dispensado por Júlio César aos piratas que o capturaram em 75 a.C.

Na estante ao lado do computador em que redijo há um livro que conta a história. Para os interessados, a obra é de Luciano Canfora, tem o nome “Júlio César – O Ditador Democrático”, e a editora é a Estação Liberdade.

Pois bem, consta que por volta do ano 75-74 a.C., em viagem a Rodes, na altura da ilha de Farmacussa, a embarcação de César foi capturada por piratas. “Os ferocíssimos piratas da Cilícia”.

Segundo a tradição, ao lhe pedirem vinte talentos por seu resgate, César teria rido na cara dos piratas, pois estes certamente não sabiam quem haviam detido. E teria lhes oferecido, por iniciativa própria, e em observância à própria “dignidade”, não os vinte, mas cinqüenta talentos. E assim enviou pessoas de sua comitiva para o recolhimento do dinheiro, mantendo consigo o pessoal médico e dois escravos.

Durante o cativeiro escrevia poesias, e recitava-as aos seus captores. Cobrava-lhes a admiração e, caso não a manifestassem, em tom de brincadeira, insultava-os e ameaçava crucificá-los. Mandava-lhes calarem-se quando queria dormir. Até que chegou o resgate.

Naquela época Roma não dava o devido combate à pirataria. Em certos casos os piratas compravam os senadores com a entrega dos escravos necessários ao trabalho nas plantações da Itália.

Com a palavra a Luciano Canfora:

“Era o ano 74, durante o governo do propretor Marcos Junio na província da Ásia, momento particularmente negativo no que concerne ao domínio romano sobre os mares. A campanha de Servílio Isáurico não tinha golpeado na raiz o flagelo endêmico da pirataria; na época os esforços econômicos e militares do Estado romano se concentravam na duríssima guerra contra Sertório na Espanha, guerra que então estava no seu ápice. A pirataria, em particular a da Cilícia, encontrava-se num momento de florescimento e de predomínio, especialmente no mediterrâneo oriental.

(...) Tão logo foi liberado, César empenhou-se na punição dos seus raptores. Armou navios em Mileto e se pôs em marcha, surpreendendo os piratas ainda ancorados nas vizinhanças da ilha. (...) essa operação toda ele a cumpriu como privatus (simples cidadão). (...) Houve uma batalha naval; parte dos navios piratas fugiu, outra parte foi afundada, outros foram capturados e os prisioneiros não foram poucos.”

E é a partir daí que a “porca torce o rabo”. César levou os piratas presos de Pérgamo até a Bítinia (onde Junio, o propretor, se encontrava), à espera de que o Magistrado lhes desse punição exemplar.

Junio, porém, não tinha em mente a aplicação da pena capital, mas tão somente o butim dos muitos denários recuperados por César quando da captura dos piratas. Chegou a expedir disposições no sentido de proceder à venda dos piratas, negócio com o qual esperava arrecadar ainda muito mais dinheiro.

Ciente das medidas do propretor, e antes que as determinações chegassem a quem quer que fosse, César voltou ao mar. Foi então que, cumprindo a sua promessa, procedeu à crucificação dos prisioneiros.

Segundo os relatos mais complacentes o romano teria agido com grande misericórdia (se isso for misericórdia, cruz credo o que não seja), estrangulando os piratas antes de crucificar seus corpos.

-(leitor[a]) – Meu Deus do céu, Bigus!!! E você acha isso bonito?!?! Você está propondo a crucificação dos piratas da Somália?!?!

Isso, leitor(a), é você quem está dizendo. Eu sou apenas um interessado em romanismos, “romanidades”, e “romanescências” em geral...

Quanto ao Caio Júlio César, esse sim, era um "homi" de opinião, e ação.

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