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Belo Horizonte - 21 de agosto de 2010
Sábado - 18h32min



O apoio a um dos lados. O Vício como virtude na Revista Carta Capital.

Sim, eu admito; sou um leitor compulsivo, e leio quase tudo que tenha letras, desde internet, revistas semanais, jornais, livros, cartazes, passando por manuais de aparelhos complicados, contratos, petições, provas, regras de "games" e tudo o mais que se possa imaginar (e que não tenha muita relação com cálculos matemáticos).

Por ser assim, e em face do que há no mercado, tornei-me leitor contumaz da Revista Carta Capital, motivo pelo qual sinto-me totalmente à vontade para criticá-la, não apenas na qualidade de cidadão, a quem os meios de comunicação devem prestar serviços, mas também enquanto consumidor, que tem direito a informações "adequadas e claras sobre produtos e serviços" (Lei n° 8.078/1990 art. 6°, III).

Assim, sou crítico do apoio da Revista Carta Capital à candidatura governista de Dilma Roussef à presidência, e à tentativa dos editores de vender o próprio vício como se fosse um mérito. E não é que eu seja contra a Dilma não.

Organizando os Fatos; Não custa explicar, para quem não lê a revista, o que está acontecendo.

Pois bem, na edição 603 há um editorial assinado por Mino Carta intitulado “Por que apoiamos Dilma”. Neste texto o editor não apenas declara como fundamenta, com motivos, o apoio da Revista Carta Capital à candidatura petista de Dilma Roussef.

Obviamente, a imprensa que declara “ter lado”, que declara “apoio”, tende a perder, aos olhos de boa parte dos leitores, em credibilidade. Apoio, afinal, significa auxílio, socorro, suporte, sustentáculo, algo mais que o mero aplauso e aprovação.

Por isso é que Mino Carta, a um só tempo, declara o apoio da revista a Dilma e defende o próprio flanco, esgrimindo três argumentos principais, a saber:

a) a declaração de apoio a candidaturas por órgãos de mídia seria uma característica da mídia “mais desenvolvida do mundo”.

Fragmento do Editoral "Por que apoiamos Dilma"

“Nada inventamos: é da praxe da mídia mais desenvolvida do mundo tomar partido na ocasião certa, sem implicar postura ideológica ou partidária.”

b) a revista, apesar de apoiar a candidatura, seria "imparcial", já que faz críticas a certas ações do governo;

Fragmento do Editoral "Por que apoiamos Dilma"

“E fomos muito críticos quando se fez passivamente a vontade do ministro Nelson Jobim e do então presidente do STF Gilmar Mendes, ao exonerar o diretor da Abin, Paulo Lacerda, demitido por ter ousado apoiar a Operação Satiagraha, ao que tudo indica já enterrada, a esta altura, a favor do banqueiro Daniel Dantas. E quando o mesmo Jobim se arvorou a portavoz dos derradeiros saudosistas da ditadura e ganhou o beneplácito para confirmar a validade de uma Lei da Anistia que desrespeita os Direitos Humanos. E quando o então ministro da Justiça Tarso Genro aceitou a peroração de um grupelho de fanáticos do Apocalipse carentes de conhecimento histórico e deu início a um affair internacional desnecessário e amalucado, como o caso Battisti.”

c) a revista deveria receber crédito por ser honesta e dizer que apóia alguem, e assim sendo mais transparente e honesta que outras mídias nativas.

Editorial "Confronto obrigatório" - Edição n° 604

“A redação recebeu um sem-número de cartas e mais de 300 comentários no nosso site a respeito do declarado apoio a Dilma, indispensável, na nossa visão, a bem do jornalismo honesto. A larga maioria aplaude a escolha, exposta com a clareza e o senso de responsabilidade que de hábito faltam à mídia nativa."

-(leitor[a]) "Ué" Bigus, mas estes argumentos estão corretos; não estão? Onde é que entra a história do "vício vendido como mérito"? Tá parecendo que a sua zanga é pelo apoio à Dilma.

Não, não.... Meu voto a presidente ainda está em aberto, mas tenho em mim decidido que não votarei em José Serra.

Mineiro, tendo ao voto em “Dilmasia” ou “Nulasia” (nulo para presidente + Anastasia para governador). Meu problema não é com a candidata, que, ainda, corre o risco de ganhar meu voto. Meu problema é com a tentativa de "venda de gato por lebre".

Eis aqui o que penso:

As mídias nacionais não são, mesmo, muito objetivas no trato das questões políticas. Tome-se como exemplo a mais virulenta das semanais, a revista Veja, que sempre tem lado e interesses. Mas apesar de serem assim, "as mídias" não costumam admitir que estão "a soldo" de grupos determinados.

-(leitor[a]) Lá vem a conspiração...

Deixem-me teminar o raciocínio.

O que quero dizer é que quando uma mídia dessas admite que age em apoio a alguém, não há lá muito mérito, pois isto, sim, é o mínimo. Em outras palavras, negar o apoio que é explícito aos olhos de qualquer leitor minimamente atento seria pior que admitir. E ai entra a "teoria da autonomia da vontade": quem admite pela falta de escolhas, não pode ser parabenizado por ter escolhido admitir.

-(leitor[a]) Então o melhor é parar de comprar e de ler essa revista. Vamos boicotar logo essa "jossa"!!

Não, nada disso. Não os lemos para o bem deles, mas para o nosso próprio bem.

Melhor que boicotar a leitura é levantar a mão, pedir a palavra e dizer, com educação e firmeza: Ei, senhor Editor, eu não engulo essa conversa furada!!! E não é porque eu pense que uma revista não possa ter lado ou opinião.

Toda revista pode (talvez até devesse) "ter lado", cabendo ao leitor identificar as fontes de informação que melhor lhe aprouverem. Apegado que sou ao contraditório, gosto de "beber" em variadas fontes, e não me importo que não declarem expressamente aquilo que posso perceber lendo.

Mas há algo com que me importo, e muito: a revista pode tomar partido, mas a máquina pública não pode.

Neste ponto, respeito as opiniões em contrário, mas penso em relação à imprensa o que Cesar pensava em relação à sua esposa: "Não basta ser honesta, é preciso parecer honesta". E não me parece muito honesto colocar à disposição da candidatura governista uma revista que, em maior ou menor grau, nos oito anos deste governo, tem sido beneficiada com anúncios publicitários de fontes direta ou indiretamente públicas.

O vício, que se apresenta como o mérito da transparência e da "vanguarda" das mídias, está em aplicar o dinheiro público em uma máquina que apóia, explicitamente, um dos lados da disputa.

Não penso em deixar de ler o períódico, e talvez ainda vá votar em Dilma. Mas este apoio de Carta Capital à candidatura governista eu vejo como um vício. Não me parece um fenômeno do campo da liberdade de expressão, mas um vício na dimensão do trato com a coisa pública.

Quem presta "auxílio, socorro, suporte, ou sustentáculo" a um dos lados da disputa, não pode receber "auxílio, socorro, suporte, ou sustentáculo" em forma de dinheiro público, seja através de anúncios ou de outro meio qualquer.

Por fim, sei que o assunto é mais complexo do que isso, mas me incomoda a tentativa de Carta Capital de posar de "boazinha" entre as demais. Até porque, neste campo, a revista menos "malvada" ainda gosta de "bater na mãe".

E tenho dito.

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